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Bem-estar é a nossa palavra-chave. No Dr. Explica, você encontra matérias e entrevistas interessantes sobre temas relacionados à saúde e diabetes, entre dicas, cuidados e nutrição.

"Espelho, espelho meu, tem alguém mais bela do que eu?" Essa frase escrita no século XIX pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, para o conto de fadas da Branca de Neve, virou célebre depois ganhar uma versão para o cinema, lançada pela Walt Disney Pictures.
A resposta a essa pergunta pode variar muito, dependendo do conceito de beleza de cada época. As tendências se modificam com extrema velocidade e o ser humano se adapta aos padrões estabelecidos pela época. Para se ter ideia, na Idade Média, o padrão "gordinha" era sinônimo de beleza, pois significava que a mulher nessa condição era abastada economicamente.
Nos anos 1950, a atriz Marilyn Monroe era o símbolo da beleza, com suas curvas e formas generosas. O corpo da artista, segundo endocrinologistas, estaria, hoje, dentro dos padrões normais que deveriam ser seguidos pelas pessoas. Já na década de 1980, o padrão estabelecido era o da modelo Cindy Crawford, mais magra, abaixo do peso indicado pelos médicos.
Independente da época, é crescente a busca por um corpo perfeito. Muitas pessoas ultrapassam seus limites na tentativa dessa conquista e fazem de tudo para ter a aparência de uma modelo. Em paralelo, a ciência evoluiu e descobriu que um corpo mais esbelto também é sinônimo de saúde.
Obesidade
Falando em padrão de beleza, ao mesmo tempo em que parte das pessoas tem se preocupado mais com o corpo, existe uma boa parcela da população que não se preocupa tanto com a saúde. Assim, fatores como sedentarismo, estresse e má alimentação fazem parte desse estilo de vida, acarretando outra complicação: a obesidade.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a obesidade já atinge mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, pelo menos 3,5 milhões de pessoas estão em estado de obesidade mórbida, ou seja, estão com pelo menos 40 quilos acima do peso corporal ideal.
Sabemos que a obesidade implica em consequências, como o diabetes tipo 2, por exemplo. Para se adaptar às tendências da moda e ter um corpo próximo aos padrões aceitos pela sociedade, além de, ao mesmo tempo, curar-se do diabetes, muitas pessoas recorrem a procedimentos radicais, como a cirurgia bariátrica, uma prática questionável caso não seja recomendada por especialista.
Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, o número de cirurgias bariátricas no Brasil registrou um grande crescimento na última década. O procedimento, indicado no tratamento da obesidade mórbida, foi realizado cinco mil vezes em 1999. Já no ano de 2009 foram realizadas 30 mil cirurgias no país, um aumento de 500% na última década.
De acordo com o professor doutor Bruno Geloneze, endocrinologista coordenador do Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes (Limed), da Universidade Estadual de Campinas, "esses números reforçam que 2% da população adulta brasileira teriam indicação dessa cirurgia devido aos casos de obesidade; dessa forma, chegaríamos ao número de três milhões de pessoas”.
Mas, você, leitor, já se perguntou o que é esse procedimento? Cura mesmo o diabetes? Como é feito? Quais os riscos que as pessoas enfrentam com esse método?
Para a pessoa que tem diabetes tipo 2, há três tipos de cirurgia que se mostram mais eficientes no controle desta: a gastroplastia vertical com reconstituição em Y de Roux, conhecida também pelos nomes bypass gástrico e Fobi-Capella; cirurgia bílio-pancreática, também chamada de Scopinaro; e a banda gástrica.
Na cirurgia bypass gástrico, o estômago é cortado deixando-se de 15 ml a 30 ml de bolsa estomacal, que se conecta com o intestino delgado. Já na cirurgia Scopinaro, há redução de 70% do estômago. A banda gástrica consiste em um procedimento de laparoscopia onde é inserido um anel de silicone ao redor do estômago, de modo a provocar uma segmentação gástrica e criar um reservatório de pequeno volume – a ingestão de alimentos preenche rapidamente este reservatório, provocando uma sensação de saciedade precoce.
Independente da metodologia empregada, o Dr. Bruno alerta que "antes de pensar em um desses tipos de procedimentos, a pessoa deve recorrer à utilização de outros métodos clínicos para manejo da obesidade e suas comorbidades durante dois anos. A decisão deve levar em conta aspectos médicos, nutricionais e psicológicos. Na parte médica, deve-se realizar exames com diagnósticos precisos das condições do aparelho digestivo, avaliação do risco cardiovascular e anestésico, dosagens bioquímicas e hormonais em geral. Para a pessoa com diagnóstico em diabetes, é preciso ter a confirmação da condição".
Para se submeter a alguma destas cirurgias, o paciente com diabetes precisa ter o controle glicêmico e de pressão adequados a fim de diminuir os riscos perioperatórios, ter comprometimento com a necessidade de seguir as medidas clínicas contínuas por toda vida, estabelecer expectativas realistas de benefícios e riscos da cirurgia e fazer um acompanhamento com especialista em diabetes para ajustes das medicações visando evitar hipoglicemias ou descontrole do diabetes e seus riscos intrínsecos de complicações.
"Mas é importante salientar que quanto maior o índice de massa corpórea maior a chance de reversão do diabetes, uma vez que a causa da condição está mais envolvida com a resistência à insulina, que, por sua vez, melhora muito com a perda de peso. Pessoas obesas com IMC entre 30 e 35 já têm características de obesos mórbidos, mas a taxa de reversão do diabetes é certamente menor que 50% e as deficiências nutricionais poderão ser mais intensas", explica o Dr. Bruno.
Por isso, é necessário ter acompanhamento de um endocrinologista para que se verifique a real necessidade de utilizar um desses métodos e se realmente a pessoa está apta para isto. Os casos de diabetes apresentam melhoras significativas, mas é importante analisar caso por caso.
"A melhora do diabetes ocorre pela redução do peso que facilita a ação da insulina, e também pela mudança de produção e ação de hormônios gastrointestinais chamados de incretinas, que, em última análise, levam a uma melhora da função das células beta pancreáticas, responsáveis pela produção de insulina. Vale ressaltar que a cirurgia de banda gástrica está baseada apenas na redução de peso, que usualmente é menos intensa que nas outras cirurgias, sendo menos eficaz na reversão do diabetes”, acrescenta o Dr. Bruno.
Mesmo com estes dados, é importante ressaltar que a pessoa que se submete a esses procedimentos, pode apresentar algum grau de desnutrição. Este quadro, eventualmente, não gera repercussões clínicas; por outro lado, pode levar a graves doenças como anemia, osteoporose e déficits neurológicos.
O Dr. Bruno ressalta que após a cirurgia, "o acompanhamento multidisciplinar é essencial e deve ser coordenado por um médico especializado em doenças metabólicas, no caso um endocrinologista. A abordagem psicológica é necessária, junto com a orientação nutricional. Os cuidados de enfermagem e da equipe cirúrgica são decisivos durante o primeiro ano".
O procedimento leva a uma modificação da fisiologia do organismo com consequências não totalmente conhecidas. Assim, a vigilância deve ser contínua mesmo nos casos de aparente sucesso. A pessoa que faz a cirurgia precisa ter consciência que é um tratamento baseado em uma "desnutrição programada" que deve ser obtida dentro de certos limites a serem eternamente controlados.
Por isso, antes de decidir se submeter a procedimentos como esses, a pessoa precisa ter bom-senso e saber que existem outros caminhos como educação alimentar e atividades físicas que auxiliam na redução de peso e no controle dos índices glicêmicos. Apesar de a sociedade ser imediatista, é preciso ponderar suas atitudes a fim de que a conquista da beleza também parta da autoaceitação. Dessa forma, é preciso amar a si próprio para que os pontos fortes sejam mais valorizados em detrimento das dificuldades! Os padrões de beleza são efêmeros... Quem sabe as medidas de Marilyn Monroe não voltam a imperar no próximo ano!