
Depois de diagnosticado o diabetes, nosso desafio é manter um padrão de vida saudável. Mas não é tão difícil como parece.
Aqui você vai conhecer e se identificar com histórias de quem superou as dificuldades iniciais e hoje tem uma rotina completamente normal. Aproveite para adotar dicas de alimentação e hábitos melhores. Novas descobertas são sempre bem-vindas.
A frase do escritor inglês Charles Dickens “nunca devemos envergonharmo-nos das nossas próprias lágrimas” poderia também ser reproduzida pela ilustradora de moda Graciele de Sousa Moraes, 30 anos, 24 deles com diabetes tipo 1 e com deficiência visual.
Aos seis anos, quando teve o diagnóstico do diabetes, a família não aceitou a condição e permitia que a filha comesse todos os alimentos sem restrição e seu tratamento não era seguido à risca. Não injetava insulina regularmente e também não realizava a automonitorização com a frequência solicitada pelo médico.
Assim, os efeitos do mau controle começaram a aparecer. “Comecei a sentir alteração na visão há quatro anos. Em um determinado momento, fiz uma entrevista de emprego em uma empresa de roupa e percebi que não consegui enxergar o suficiente para realizar o desenho solicitado”, conta.
Preocupada, Graciele foi ao oftalmologista, que afirmou que a jovem perderia totalmente a visão. Sem acreditar, continuou a sua vida do mesmo jeito, trabalhando normalmente ainda durante um ano e meio. Em seguida, ficou sabendo que estava grávida.
Segundo estudo realizado na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre pelos endocrinologistas Airtor Golbert e Maria Amélia A. Campos, em 2008, “com o progresso da gestação, a mãe tem um risco de piora na retinopatia, hipertensão induzida pela gestação, pré-eclampsia, infecções de trato urinário, entre outros. Todas essas complicações podem ser prevenidas ou, pelo menos, minimizadas pelo planejamento da gestação e pelo controle intensivo das oscilações das glicemias, mantendo-as próximo ao normal”.
No caso da Graciele, como não houve planejamento e nem controle da glicemia por anos, os efeitos foram acentuados com a gravidez. “Sentia vista embaçada, com perda de nitidez e distorção das imagens. Fui a outro oftamologista e fiz algumas sessões de laser, já que apresentava deslocamento de retina e diminuição de seu calibre além de hemorragia nos vasos que irrigam os olhos. Os lasers consistem em comprimentos de ondas que evitam a proliferação dos vasos ou destroem aqueles que proliferaram”.
Mesmo com o tratamento, não obteve tanto sucesso, já que o estágio da complicação estava bem avançado. Assim, hoje, Graciele consegue enxergar apenas vultos.
“Já chorei muito, senti muito insegura em muitos momentos, mas percebi que não poderia mudar o panorama que eu e minha família tínhamos negligenciado durante muito tempo”, relata Graciele.
Assim, a ilustradora reergueu a cabeça e começou a procurar jeitos de refazer sua vida mesmo com a limitação. “Procurei a Fundação Dorina Nowill, dedicada à inclusão social das pessoas com deficiência visual. Comecei a fazer cursos de orientação e mobilidade para andar de bengala nas ruas, de reabilitação das tarefas do dia-a-dia, de braile, de empregabilidade e informática”.
Além disso, no próximo ano, fará curso de tradução e intérprete na Faap e tem grandes possibilidades de sair da instituição com emprego.
Programas Dorina Nowill
Com mais de 65 anos de atuação, a instituição oferece gratuitamente programas de serviços especializados à pessoa com deficiência visual e à família, nas áreas de educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade.
Uma das iniciativas de destaque da instituição é a parceria com o SESI e o Instituto Meus Olhos têm Quatro Patas que proporcionará transferência de tecnologia social para trabalhadores da indústria paulista que têm deficiência visual. O projeto consiste em disponibilizar cães-guias para promover mobilidade e autonomia para as pessoas com deficiência a fim de terem mais independência e segurança.
Segundo o psicólogo Edson Defendi, coordenador da área de empregabilidade da Fundação Dorina Nowill, “desde abril, 32 filhotes das raças Labrador e Golden Retriever estão com as famílias acolhedoras, selecionadas pela entidade. Essa etapa é importante para que os cães possam vivenciar situações que auxiliam o equilíbrio comportamental para que se adaptem melhor à vida das pessoas com deficiência”.
Após esta etapa, os filhotes passarão para um centro de treinamento do Instituto Meus Olhos têm Quatro Patas para adestramento intensivo e a previsão é que em janeiro sejam acolhidos pelos futuros donos e passem por um período de adaptação.
“Já foram preparados protocolos a fim de que as famílias selecionadas passem por uma avaliação global para saber se podem hospedar esse cão. Entre os requisitos, estão o tamanho da casa que não pode ser muito pequena, o padrão sócio-econômico para saber se poderá proporcionar ao novo morador as condições de sua sobrevivência e o perfil comportamental adequado”, explica Edson.
“Esse programa proporcionará mais segurança, companhia às pessoas com deficiência, tirando o estigma que parte da sociedade tem, além de proporcionar a aproximação e a interação com as pessoas que possuem ou não essa característica”, adiciona Edson.
“Adoraria ter um cão desses aqui em casa, pois me daria muita autonomia e segurança para realização de todas as minhas atividades. Mas minha casa é muito pequena para ter um cão desse porte”, comenta Graciele.
Mesmo assim, Graciele não fica triste por não poder participar da ação. “As pessoas acham que somos dependentes e não é verdade, pois percebemos que temos plena capacidade de realizar a maioria das atividades. Por isso, vivo um dia de cada vez e estou reaprendendo a realizar as atividades diárias. Assim, descobri o quanto sou capaz de superar as limitações e o potencial que existe dentro de mim”,
“Venci o preconceito que tinha e consigo cuidar de mim e do meu filho de dois anos sem problemas. Hoje faço o tratamento do diabetes de forma correta e percebi que as pessoas me valorizam bem mais por conseguir ultrapassar as minhas limitações. Atualmente, enxergo muitas oportunidades para meu crescimento”, finaliza Graciele.
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