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Células embrionárias: esperança para o futuro


Já faz algum tempo que o tema “células-tronco embrionárias” ocupa um lugar de destaque nos noticiários. Cientistas e a sociedade discutiam se os estudos com esse tipo de material humano deveriam ou não ser feitos. O debate durou até o último dia 29 de maio, quando o Supremo Tribunal Federal aprovou a realização das pesquisas no Brasil.
As células-tronco (CTs) são importantes porque possuem uma grande capacidade de reprodução e podem se transformar em outros tipos de células, o que ajudaria, e muito, na reconstituição de tecidos danificados por doenças ou traumas.

Existem dois tipos de células-tronco: as adultas, que são encontradas principalmente na medula óssea e no cordão umbilical, e as embrionárias, retiradas de embriões humanos, a princípio congelados e descartados pelas clínicas de fertilização assistida.
Os trabalhos com células adultas não encontraram obstáculos científicos, nem sociais, porque são células que estão no organismo do próprio paciente. Aliás, diversos grupos de pesquisadores vêm testando formas diferentes de terapias com humanos – as chamadas terapias celulares, nas quais as células-tronco adultas são retiradas da medula do paciente, modificadas pelos cientistas e implantadas onde são necessárias. Na área da cardiologia esse tipo de terapia está mais avançado. Já no caso das células embrionárias o assunto é polêmico, porque alguns setores da sociedade consideram os embriões como formas de vida humana, o que gera problemas éticos e religiosos. No entanto, as células-tronco embrionárias são as que possuem maior potencial de reprodução e transformação em tecidos diversos, o que leva os cientistas a acreditarem que elas seriam a grande esperança da humanidade para a cura de doenças até hoje sem perspectiva de tratamento ou cura.

Após a liberação legal das pesquisas brasileiras com células-tronco embrionárias, as esperanças aumentaram, principalmente em relação ao diabetes. A idéia é que a terapia celular possa regenerar a produção de insulina no organismo. De acordo com o Dr. Daniel Lerário, endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein, a expectativa em relação ao uso de células-tronco embrionárias no tratamento do diabetes é grande, especialmente para o diabetes tipo 1. “Nesse caso, o principal problema é a inflamação que ocorre nas células beta responsáveis pela produção de insulina – que as destroem completamente. Como as células-tronco podem se transformar em qualquer outra célula, elas poderiam dar origem a células beta novas, que funcionariam de maneira adequada, regenerando a função do pâncreas no organismo, isto é, recuperando a produção de insulina.”

Embora a recuperação da produção de insulina possa ser vista como uma cura para o diabetes, o Dr. Lerário informa que o processo não é tão simples assim. “Não basta regenerar as células beta. O diabetes tipo 1 é uma doença auto-imune, ou seja, o próprio organismo se agride. Por isso é preciso fazer com que as células beta não sejam atacadas por ele. As novas células beta teriam que ser resistentes ao ataque imunológico. Inclusive, outras células-tronco poderiam ser usadas para reduzir a resposta auto-imune. Esse é um grande desafio que a medicina tem pela frente”, acrescenta o endocrinologista.
E a ciência não quer perder tempo. Embora as CTs embrionárias ainda sejam uma novidade para a realidade nacional, especialistas de todo o País se preparam para dar início aos trabalhos e descobrir o verdadeiro potencial desse material de capacidade teoricamente ilimitada. O Dr. Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Equipe de Transplante de Células-Tronco do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (USP), conta que no caso específico do diabetes os estudos com células-tronco embrionárias podem seguir dois caminhos:

– Transplante direto das células-tronco, ou seja, injeção das CTs pela veia do paciente ou mesmo por meio de um cateter até o pâncreas para que elas se transformem nas células necessárias dentro do organismo do paciente;
– Transformação das células-tronco em células beta em laboratório para em seguida implantá-las no paciente.
Segundo o pesquisador, no Brasil já existem trabalhos sendo realizados com CTs embrionárias na área do diabetes, mas ainda em modelos animais e em pesquisas em laboratório (in vitro). “Vários grupos nacionais estão interessados em realizar estudos clínicos em humanos, entretanto, isso levará algum tempo. Nos Estados Unidos, laboratórios multinacionais estão investindo milhares de dólares para se juntar com centros universitários de pesquisa no desenvolvimento de projetos em seres humanos e posteriormente patentear o procedimento”, informa.

Realidade
As discussões sobre o uso das células-tronco embrionárias, sobre a participação dos cientistas brasileiros neste novo caminho de pesquisas e sobre os resultados positivos que podemos encontrar são intensas e otimistas. Mas na verdade, o processo de conhecimento do potencial das células-tronco está bem no início.

“Como endocrinologista atuante, vejo na prática do dia-a-dia que as pessoas com diabetes depositam muitas esperanças no desenvolvimento da terapia celular. Tenho até um certo temor em relação a essa expectativa toda, que pode acabar sendo maior que a realidade. É preciso lembrar que, embora se fale muito no assunto, de concreto ainda não existe nada. Nem o método de transplante de ilhotas – em que células beta são retiradas de um doador e implantadas na pessoa com diabetes –, que mostra resultados animadores em países como o Canadá, pode ser indicado como tratamento. Tudo são experimentos”, comenta o Dr. Lerário.

Na opinião do Dr. Couri, as células embrionárias têm um potencial fantástico, mas é preciso ter consciência de que os resultados demandam um certo tempo para serem completamente validados e mais tempo para tornar a terapia celular uma terapia corriqueira para as pessoas com diabetes. “Além disso, em qualquer procedimento terapêutico há um grupo de pessoas que responde bem e outro que responde mal aos seus efeitos. Com as células embrionárias será a mesma coisa”, esclarece.

O pesquisador diz ainda que a palavra “cura” é muito forte para os resultados positivos da terapia celular. “Recuperar a secreção de insulina é apenas um dos pontos do tratamento do diabetes tipo 1 e tipo 2, que deve sempre ser acompanhado de atividade física regular e alimentação saudável. Não adianta a pessoa com diabetes tipo 1 se livrar das injeções diárias de insulina e permanecer sedentária, com alimentação inadequada. Quanto ao diabetes tipo 2, a restauração da secreção de insulina deve sempre estar associada a medidas para redução da resistência insulínica.”

CTs hoje
Atualmente, o Dr. Couri participa das pesquisas com células-tronco adultas realizadas na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). Lá os resultados em humanos já são promissores. “Felizmente o nosso grupo de pesquisa é pioneiro e tem grande experiência internacional com o uso de células-tronco adultas em pessoas com doenças auto-imunes. Sem dúvida alguma, até o momento, nossos resultados são muito animadores. De 22 pacientes submetidos ao tratamento em nosso centro, 20 conseguiram permanecer livres de insulina em algum momento. Hoje, 15 pacientes estão continuamente sem necessidade de insulina por períodos que variam de um mês (último paciente que realizou o tratamento) a quatro anos. Cinco pacientes conseguiram ficar sem insulina por alguns meses de maneira transitória e em dois pacientes o método não funcionou”, revela.

O especialista acredita que não há possibilidade de utilização dessa terapia celular a curto prazo. “As pesquisas ainda são muito recentes e para que um procedimento médico seja liberado para uso geral são necessários anos de estudos em um número grande de pacientes, para avaliar a real eficácia e segurança dos procedimentos. O alento é que a cada ano que passa evoluímos no conhecimento em terapia celular e certamente teremos boas novidades nos próximos anos. Quem imaginaria que conseguiríamos suspender insulina em pacientes com diabetes tipo 1?”, indaga.

O grupo do Dr. Couri iniciou os estudos clínicos com as células-tronco adultas no final de 2003, em pacientes com diabetes tipo 1. Segundo ele, o tratamento realizado consiste basicamente na reprogramação do sistema imunológico. É como se o sistema de defesa do organismo fosse desligado e religado novamente – fenômeno chamado de reset imunológico.
“Na primeira fase do tratamento coletamos as células-tronco do paciente e as congelamos. Na segunda fase desligamos o sistema imunológico com altas doses de drogas imunossupressoras durante cinco dias e depois o religamos com a infusão endovenosa das células-tronco que foram coletadas. O real efeito desse reset imunológico ainda não é completamente conhecido, mas achamos que promove maior tolerância no sistema imunológico das pessoas”, relata o Dr. Couri.

Ele ressalta que os dados atuais não indicam que as células-tronco adultas sejam capazes de se diferenciar em células beta. “Com isso, o principal objetivo de nosso estudo é utilizar as células-tronco para regenerar o sistema imunológico são e preservar a massa de células beta ainda não destruída”, finaliza.

Os resultados das pesquisas realizadas com células-tronco adultas animam os pesquisadores a continuarem buscando um tratamento definitivo para o diabetes. As células embrionárias representam uma hipótese significativa nessa caminhada. No entanto, é preciso lembrar que toda pessoa, com diabetes ou não, deve cuidar da saúde. Assim, quando as boas notícias sobre a terapia celular chegarem, estará mais apta para recebê-las.



Última modificação 21 novembro 2008