Por uma vida mais saudável
A integração dos cinco pilares: alimentação, exercícios físicos, consultas médicas, medicação e monitorização, garante a qualidade de vida
Cuidar bem do diabetes é essencial, mas não é uma tarefa muito fácil, até porque as medidas necessárias exigem mudanças comportamentais. É preciso transformar o dia-a-dia, aprender e buscar constantemente informações. Mas é exatamente aí, na batalha contínua, que está a chave para uma vida longa e saudável. De maneira geral, o diabetes é gerenciado por meio de cinco pilares: alimentação, exercícios físicos, consultas médicas, medicação e monitorização – as conhecidas pontas de dedo. De acordo com a Dra. Viviane Carvalho Cabeça, diabetologista especializada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), integrando adequadamente esses cinco itens, a pessoa com diabetes pode tudo. “Antigamente a vida da pessoa com diabetes era muito difícil. Hoje não. Aprendendo a controlar bem a glicemia, o paciente tem muito mais liberdade e uma vida social normal”, comenta.
Alimentação regrada
O tratamento de quem tem diabetes deve começar pela boca. Dietas severas não são necessárias, mas cuidados básicos precisam ser tomados, mesmo após a descoberta da possibilidade de contagem de carboidratos – fato que tornou a alimentação mais flexível e variada, melhorando sensivelmente a qualidade de quem faz insulinoterapia.
“Antigamente havia a idéia de que quem tinha diabetes não podia comer carboidratos. Hoje sabemos que o carboidrato é necessário para o funcionamento de todo o metabolismo. Não podemos abrir mão de sua ingestão. Com o desenvolvimento da contagem de carboidratos as pessoas com diabetes podem comer praticamente tudo, mas sem esquecer que precisam ter moderação. A contagem de carboidratos dá liberdade, mas a rotina deve ser equilibrada”, diz a médica.
Ela orienta seus pacientes a manter uma dieta regrada de segunda a sexta-feira, com o consumo de arroz, feijão, saladas e frutas (sem excessos) para que no final de semana seja possível comer algo diferente sem interferir no bom controle glicêmico. Lembra que o consumo de frutas também não pode ser exagerado, por causa da frutose. “As frutas devem ser consumidas ao longo do dia. Três porções de frutas variadas já são suficientes”, orienta.
Embora essas dicas sejam básicas para as pessoas com diabetes, a Dra. Viviane ressalta que o ideal é que o acompanhamento da dieta seja feito por uma nutricionista. “Os médicos têm noções de nutrição, mas só um profissional da área poderá realmente ajudar a escolher os alimentos ideais dentro das necessidades e do estilo de vida de cada um, passando também informações sobre os componentes nutricionais.”
Em relação à contagem de carboidratos, a diabetologista conta que o processo não é tão simples. A pessoa com diabetes recebe do seu médico uma relação de alimentos, com a quantidade de carboidratos que possuem e a quantidade de insulina que precisa ser aplicada antes de sua ingestão. Geralmente os cálculos são feitos pelo próprio médico, que individualiza o tratamento.
“Para as pessoas com mais tempo de diagnóstico, que estão ainda amedrontadas com os carboidratos, a adaptação é mais complicada, pois esses pacientes vêm de regras mais antigas que hoje já não são mais válidas. No caso dos pacientes recém-diagnosticados é mais fácil adaptar-se à rotina, mas deve-se tomar cuidado para evitar exageros que podem ser prejudiciais à saúde. O importante é ter equilíbrio, bom senso”, orienta a médica.
Exercícios moderados
Fazer exercício é importante para todo mundo. Mas principalmente para quem tem diabetes. Assim, é melhor procurar uma atividade agradável, que também ajude a melhorar o humor, o bem-estar, a integração social e a eliminar o estresse.
“Os exercícios são fundamentais. No caso de quem tem diabetes tipo 2, eles atuam diretamente na melhora dos valores glicêmicos. Nos com tipo 1, embora não estejam diretamente relacionados à estabilização dos níveis glicêmicos, os exercícios ajudam na manutenção do peso, evitando um tipo de efeito cascata: aumento do peso que aumenta as quantidades insulínicas diárias. Isso aumenta ainda mais o peso, que ocasiona a síndrome metabólica com risco cardíaco e metabólico muito aumentado, piorando o prognóstico desses pacientes”, informa a especialista.
A pessoa com diabetes pode praticar qualquer modalidade esportiva, até esportes radicais, desde que seu coração esteja bem. Por isso é importante consultar um cardiologista regularmente. Crianças e pessoas que usam sistema de infusão contínua (SIC) também podem escolher qualquer forma de exercício. “Na verdade, o ideal para qualquer ser humano é a prática de exercícios moderados de três a quatro vezes por semana”, sentencia.
Medicação adequada
Graças à evolução científica hoje existem no mercado medicamentos bastante eficazes para o controle da glicemia. Entre as novidades, a Dra. Viviane cita um análogo do GLP-1, hormônio do intestino que dá a sensação de satisfação digestiva, promovendo o retardo do esvaziamento gástrico. “Com esse medicamento, se a pessoa comer o que não é necessário, ou seja, se exagerar, acaba vomitando. É uma medicação importante para as pessoas com diabetes tipo 2, pela proposta de perda de peso, que leva à redução da resistência a insulina e conseqüentemente melhora das glicemias. É indicada para pacientes obesos.”
Outro medicamento recente é uma droga que melhora o metabolismo dos ácidos graxos livres, diminuindo o depósito de gordura nas vísceras, pois age em um sistema ainda pouco conhecido que promove benefícios cardiometabólicos reduzindo os triglicerídeos e aumentando o HDL (colesterol bom). “Esse medicamento, inclusive, vem sendo divulgado erroneamente pela mídia como a pílula da barriga.”
Para quem tem diabetes tipo 1 o SIC de insulina é considerado uma excelente opção de tratamento. “Ele já está disseminado entre as pessoas com diabetes e trata-se de um sistema realmente eficaz que deixa o indivíduo mais livre para realizar suas atividades diárias e para se alimentar”, comenta a médica.
Para ela, hoje existem ótimas medicações e o correto é que o médico encontre a melhor medicação para o perfil de cada paciente. “Cada pessoa tem sua história, seu ritmo de vida e cada organismo reage de forma diferente. E para cada um existe uma medicação adequada.”
Consultas regulares
De acordo com a Dra. Viviane, o item visita ao médico é menosprezado pela maioria das pessoas com diabetes. “A falta às consultas é o maior problema que temos, especialmente no caso de quem usa o SIC de insulina. As pessoas acham que estão bem controladas e simplesmente não voltam às consultas. Entretanto, para saber se estão mesmo bem, atingindo as metas do seu tratamento adequadamente, precisam fazer exames regulares, como o de hemoglobina glicosilada, por exemplo – que deve ser feito de três em três meses – e a análise dos resultados da monitorização.”
Pacientes com a glicemia bem controlada devem ir ao endocrinologista ao menos duas vezes por ano. Já os que não estão tão bem controlados devem visitar o profissional conforme a orientação dele.
Monitorização diária
“A ponta de dedo é fundamental. Não há como a pessoa controlar adequadamente sua glicemia se não fizer monitorização diária. A automonitorização permite ao indivíduo conhecer melhor seu organismo e como ele reage a suas atividades diárias e alimentação, possibilitando os ajustes adequados para manter a glicemia controlada e, assim, levar uma vida normal. Temos que lembrar que os sintomas clínicos não são fidedignos e não dá para adivinhar o valor glicêmico, é preciso medi-lo”, reforça a Dra. Viviane.
Segundo ela, a pessoa com diabetes tipo 1que está bem controlada pode fazer de quatro a cinco pontas de dedo por dia. Se estiver em período de ajuste de dose de insulina, de seis a oito pontas de dedo, conforme for necessário e indicado pelo médico. Se apenas tomar antidiabético oral, medir a glicemia uma vez por dia é suficiente, mas fazer mais pontas de dedo pode ajudar o paciente a se conhecer melhor. “A necessidade depende do perfil de cada um”, informa.
Além disso, a diabetologista enfatiza que o indivíduo com diabetes não pode deixar de fazer monitorização na hora do exercício físico. “É adequado conferir a glicemia antes, e se for possível, durante e depois da atividade física, para evitar hipoglicemias ou fazer exercícios com hiperglicemias, que também é contra-indicado”, aconselha.
Seguir corretamente os passos acima é garantia de sucesso terapêutico. Aliás, é garantia de vida saudável para qualquer pessoa. Mas é bom lembrar que quem tem diabetes deve ter uma vida plena e feliz, como todo mundo. Portanto, procure seu médico, confira seu cardápio, invista nos exercícios, tome a medicação ou aplique a insulina na hora certa e não descuide da monitorização. Transforme a rotina de cuidados em uma aliada e aproveite tudo o que a vida tem de bom!
Não esqueça!
- Procure uma nutricionista. Conhecendo os grupos de alimentos você se cuida melhor.
- Tenha sempre uma fonte de energia rápida (carboidrato) na bolsa ou na mochila para evitar episódios de hipoglicemia. Passar mal no meio da rua é um perigo.
- Comente com seus amigos, colegas de trabalho e familiares que você tem diabetes. É importante que eles saibam como agir em uma hora de necessidade. Prevenir é melhor que remediar.
- Tire todas as suas dúvidas na consulta médica. Inclusive sobre as informações que viu no jornal ou na internet. Só o profissional especializado pode o aconselhar.
- Procure prazer na atividade física, assim o exercício realmente melhora sua qualidade de vida.
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